WRC: Quattro vs 037, uma História de…tracção.

WRC: Quattro vs 037, uma História de…tracção.

Por Rafael Neves

Audi e Lancia. Duas marcas, dois países, dois pesos pesados do rali. Em 1983, o confronto entre as duas marcas fez desta temporada uma das mais icónicas de sempre no mundial de ralis. Os italianos já tinham um histórico de sucesso nos ralis, com o Fulvia e o Stratos a conquistarem títulos de construtores para a marca. No entanto, a viragem de década trouxe consigo uma grande ameaça, o Audi Quattro. A marca alemã trazia consigo aquela que viria a ser uma mudança de paradigma no mundo dos ralis: a tração 4×4. A Audi entrou com estrondo no campeonato ao vencer o mundial de ralis em 1982 mas, no ano seguinte, a Lancia tinha uma resposta pronta para os alemães: o Lancia 037. Com um carro de tração traseira, a Lancia não parecia ter condições para fazer frente ao Quattro, mas a verdade é que o engenho e os regulamentos ainda pouco apertados iam ajudar os italianos a ficarem mais perto. Ainda antes do começo do campeonato, a trama italiana começou a montar-se. Era obrigatório que as marcas produzissem pelo menos 400 carros de estrada prontos para venda antes de poderem inscrever o respetivo modelo na competição. Para dar a volta a esta situação, a Lancia estacionou 200 carros num parque de estacionamento e disse que os restantes 200 estavam num parque do outro lado da cidade. Depois de os fiscais verem o primeiro parque, os responsáveis da marca levaram-nos a almoçar enquanto moviam os mesmos 200 carros para o outro parque. Mas os esquemas da marca não ficavam por aqui. Era obrigatório que os carros de competição tivessem uma roll cage para segurança dos pilotos, no entanto, esta estrutura aumentava o peso do carro e diminuía a velocidade, pelo que a marca instalou uma estrutura perfeitamente credível à primeira vista, mas que na prática não era propriamente funcional. Este facto ficou demonstrado nas imagens dos carros após acidentes, em que os danos eram em tudo semelhantes a um carro sem roll cage nenhuma. Os conselheiros do piloto principal da marca para aquela época, o campeão em título Walter Rohl, avisaram o piloto da falta de segurança do carro italiano caso tivesse um acidente, sendo que o alemão respondeu dizendo “Eu não tenciono ter um acidente”.

Começava então o campeonato. A Audi mantinha a dupla de pilotos, com Hannu Mikkola e Michèle Mouton, aos quais se juntava Stig Blomqvist. A Lancia ia a jogo com Walter Rohl, que tinha ganho no ano passado pela Opel, e o finlandês Markku Alén. Walter Rohl era um piloto com uma personalidade muito particular, tendo dito que não queria ser campeão do mundo, queria ser apenas um piloto normal, e queria participar apenas nos ralis de que gostava. O campeonato começou logo com um enorme desafio para a Lancia, o rali de Monte Carlo. As estradas cheias de gelo não eram um bom pronúncio para os carros de tração traseira da Lancia, que tinham tudo para perder para o Audi de tração total. Como tal, a marca italiana mandou funcionários armados com sacos de sal para despejar nas curvas perigosas de forma a derreter o gelo e a garantir que a superfície estava seca aquando da passagem dos seus pilotos. Para além disso, depois de passarem os trajetos com gelo, os carros paravam à beira da estrada para mudarem os pneus, algo que não era prática correta, mas que também não era proibido. As táticas italianas deram resultado uma vez que conseguiram o primeiro e segundo lugar.

A seguir vinha a Suécia, rali de neve. Como dificilmente arranjariam sal suficiente para derreter toda a neve do país, e este evento não contava para o campeonato de construtores, a marca italiana resolveu o problema ao simplesmente não comparecer.Vitórias no Rali de Portugal e Rali Safari fizeram com que a Audi assumisse a liderança destacada do campeonato mas, a seguir, vinha o rali da Córsega, inteiramente em estrada. Aí, a Lancia levou não 2 mas 4 carros, sendo que todos ficaram à frente dos Audi, que tiveram problemas mecânicos. O rali seguinte era o de Acrópole, na Grécia, conhecido por ser o mais duro do calendário e, surpreendentemente, o desfecho foi semelhante, com os Audi a terem problemas mecânicos que permitiram à Lancia ficar nos dois primeiros lugares.No rali seguinte, na Argentina, a Audi não estava para mais brincadeiras e dominou completamente o pódio.

A seguir vinham dois eventos fulcrais para o campeonato: Finlândia e San Remo. Na Finlândia, a Lancia tinha um problema, que era o facto de o seu piloto Walter Rohl não querer fazer o rali. A prova já na altura era conhecida pelos múltiplos saltos e, nas palavras do piloto alemão, “se quisesse voar pilotava um avião, não conduzia um carro”. Isto permitiu à Audi garantir os dois primeiros lugares, à frente de Markku Alén, mas a Lancia ainda tinha a hipótese de garantir o título na prova seguinte, em San Remo.

A possibilidade de ganharem o título em Itália era muito atrativa e a marca fez de tudo para o conseguir. O principal problema desta prova era o facto de a superfície fazer com que se levantasse muito pó após a passagem dos carros. Os italianos tentaram contrariar isto ao enviar uma carrinha com escovas para as estradas, mas esta estratégia não resultou, pelo que, na linha de partida, os pilotos começaram a inventar desculpas (mau encaixe dos cintos ou das portas) para atrasarem a partida e permitirem que o pó assentasse. Os oficiais começaram a perceber as suas intenções e puseram um fim a isto. Ainda assim, a Lancia pôde contar com a qualidade dos seus pilotos que dominaram o pódio e conquistaram o título em “casa”. Hannu Mikkola acabaria por ganhar o campeonato de pilotos, mas o grande duelo, aquele que verdadeiramente interessava na altura, já estava ganho, e a Lancia nem precisou de compareceu nas duas últimas provas da temporada.

Nunca mais um carro de tração parcial ganhou um campeonato mundial de ralis.

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