Treinadores: reféns do momento e do tempo

Treinadores: reféns do momento e do tempo

Por Rui Silva

Quando o Sporting decidiu dispensar Marcel Keizer, perdi uns minutos a fazer uma lista dos treinadores que, no século XXI, fizeram apenas – e este “apenas” é muito importante para interpretar corretamente os resultados – épocas completas ao serviço de FC Porto, Benfica e Sporting.

A lista é assustadoramente curta: o FC Porto tem Fernando Santos, Co Adriaanse (incluído por não ter chegado a fazer o primeiro jogo da segunda época), André Villas-Boas, Vítor Pereira, Nuno Espírito Santo e Sérgio Conceição (está a caminho da terceira temporada completa); o Benfica tem Giovanni Trapattoni, Ronald Koeman, Quique Flores e Jorge Jesus; e o Sporting surge com Lazslo Bölöni, Fernando Santos, Leonardo Jardim, Marco Silva e Jorge Jesus.

Confusos? Na altura, a lista provocou as críticas de muita gente. Então e Jesualdo Ferreira? E Paulo Bento? E Rui Vitória? É aqui que o tal “apenas” ganha dimensão e ajuda a demonstrar a importância de garantir temporadas completas do início ao fim das suas experiências.

O que quero dizer com isto? Um treinador que sai a meio de uma temporada, sobretudo num clube grande em Portugal, é um líder que fracassou com um projeto a meio. Não se dá o salto para o estrangeiro a meio de uma temporada, logo só pode haver um insucesso associado. Ao mesmo nível, chegar a um grande com o ano iniciado demonstra automaticamente que algo estava a correr mal.

Dizer que os treinadores são reféns do momento e do tempo não é a última batata frita do pacote. Toda a gente consegue perceber isso. O que por vezes nos esquecemos é que, por mais qualidade que um treinador possa ter, o tabuleiro raramente está inclinado favoravelmente.

Silas, como tantos antes dele, chegam a um grande com o clube arder. A tarefa é ingrata e a maior probabilidade aponta sempre para um desfecho negativo. Jesualdo Ferreira no Dragão (chegou logo em agosto), Paulo Bento em Alvalade e Bruno Lage na Luz foram exemplos com consolidação de sucesso, mas não é fácil. E José Mourinho, o treinador com mais sucesso ao leme de uma equipa portuguesa no século XXI, que o diga.

Quando chegou de Leiria, Mourinho tinha um FC Porto a caminho de uma inédita terceira temporada consecutiva sem vencer na era de Pinto da Costa. A hegemonia parecia estar em fim de ciclo e, apesar de uma série de quatro vitórias a abrir, houve resultados que aumentaram as incógnitas. O trunfo foi garantir uma comunicação forte de confiança para o futuro. E, claro está, ser Mourinho.

O fenómeno global mostra que são poucos o que o conseguem. A oportunidade de treinar um grande é, para muitos, um comboio que só passa uma vez e não há margem para esperar pelo momento certo. O problema é que há uma diferença entre vacina e remédio.

Remédio é o treinador tapa-buracos. Aquele que está sempre disposto para pegar num clube a qualquer momento e, sobretudo, iniciar com êxito uma campanha de fuga à despromoção. É uma aspirina de efeito imediato mas que não resolve nada a longo prazo. A vacina é o treinador de modelo, de princípios, de ideias. Pode ser a melhor opção a longo prazo mas… não tem margem de manobra e sabe que ao primeiro deslize tudo é posta em causa.

É esta a importância da tal estatística inicial. Fazer apenas épocas completas ao serviço de um grande é um luxo apenas ao alcance de uma elite reduzida. Fernando Santos e Jorge Jesus fizeram-no em dois clubes diferentes, outros foram campeões. Os que sobram – Koeman, Quique, NES, Jardim e Marco Silva – não fizeram mais do que uma época com patamares de sucesso muito diferentes.

Mas conseguiram preparar a época. E executaram-na até ao fim. Partiram em pé de igualdade e não tiveram qualquer handicap prático no início, apesar das diferenças conjeturais de caso para caso. E saíram sem desculpas. Jogaram até ao último encontro, até já não haver disputas em aberto. E isto também é importante: há vinte anos houve um treinador da II B que garantiu um bónus chorudo por ter sido despedido quando o clube que treinava ainda estava nas eliminatórias da Taça de Portugal. Havia uma cláusula no contrato com prémio por conquista e, bem, exigiu que este fosse pago, uma vez que estava a ser despedido com “tudo em aberto”.

Silas terá o jugo sob a cabeça. É apenas o mais recente a chegar a esta situação e muitos virão depois dele. É a consequência natural de uma era em que os nossos limites de paciência e atenção são cada vez mais reduzidos e começa a parecer natural substituir tudo a cada fracasso. Começar de novo, como se se tratasse de um reset no Football Manager, é sempre mais sedutor. Mesmo que contraproducente na vida real.

É este ambiente que ajuda a promover cenários surreais em que Leonardo Jardim regressa ao Monaco na mesma época em que foi despedido e Zinedine Zidane surge para “salvar” o Real Madrid depois de ter fechado um capítulo com a chave de ouro.

Não há momentos nem tempos perfeitos para serem aplicados a cada situação. Ou melhor: haver há, mas raramente surgem. Conseguir servir de remédio enquanto se aplica a vacina é uma tarefa malabarista que só está ao alcance de predestinados. Este circo não é mesmo para todos.

Imagem de destaque emprestada pelo transfermarkt.com

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