Keizer: Pode um treinador ser refém do medo?

Keizer: Pode um treinador ser refém do medo?

Por Rui Silva

Marcel Keizer não é o mesmo treinador que chegou a Alvalade em 2018. O estilo com que pautou as primeiras semanas ao comando do Sporting desapareceu e foi substituído por um excesso de pragmatismo que não se justifica exclusivamente pela adaptação ao futebol português.

A mentalidade retrógada que persiste em Portugal apressou-se a garantir que Keizer iria ter dificuldades e o tempo acabou por lhe dar razão, embora por motivos radicalmente diferentes. O primeiro verdadeiro sinal de que Keizer estava a fugir ao próprio guião surgiu em janeiro de 2019, em Tondela, quando, nos minutos finais, o estilo apoiado e de alguma vertigem ofensiva foi substituído pelo futebol direto em desespero, e já com Coates entre os centrais adversários.

As últimas semanas marcaram uma nova etapa na experiência portuguesa de Keizer. O treinador holandês tornou-se refém do próprio medo, sentindo o futuro em risco depois da goleada sofrida na Supertaça e o empate na Madeira com o Marítimo.

O estilo de Keizer – a existir – tornou-se um adereço da realidade. A necessidade de conquistar os três pontos, semana após semana, tornou-o um treinador previsível, sem capacidade para surpreender o adversário, sobretudo durante o jogo, e incapaz de agir antes de ser necessário reagir.

O jogo em Alvalade com o Sp. Braga foi o primeiro sinal claro deste fenómeno. Perante os avanços promovidos pelas substituições de Sá Pinto, o Sporting bateu em retirada dominado pelo medo após o golo de Wilson Eduardo. A responder às entradas de Paulinho e Murilo nos arsenalistas, Keizer retirou um ala (Diaby) e reforçou o eixo da defesa com Neto.

Se o Sporting estava com presença ofensiva no jogo até àquele momento, tudo mudou. Recusou linhas, ficou sem capacidade para continuar a importunar Matheus e desistiu completamente de atacar. Agarrou-se aos três pontos com unhas e dentes e, apesar de ter muito para correr mal,… correu bem.

Uma semana depois, em Portimão, Marcel Keizer voltou a demonstrar ser cada vez mais um treinador possuído pela obsessão do equilíbrio e incapacidade de alterar as dinâmicas em campo. Foi também o momento em que cedeu à exigência popular, apostando pela primeira vez em jogos oficiais na titularidade de Vietto e na convocatória de Plata.

O arranque de encontro teria tudo para construir patamares de confiança mas Keizer não conseguiu escapar ao próprio guião. A vantagem de dois golos, reposta aos 65 minutos, não pareceu sossegar o holandês por um único segundo. Voltou a mexer muito tarde – refrescando o meio-campo com Eduardo no lugar de Wendel aos 79 minutos – e a defesa com Borja no lugar de Acuña a dois minutos do fim. O treinador não esgotou as substituições e Camacho e Plata ficaram a aguardar pela estreia.

Carlos Carvalhal, como qualquer outra pessoa, percebeu a dinâmica de Keizer. Chegou a Alvalade com a perfeita noção do que poderia acontecer no segundo tempo, se chegasse a esse ponto. Se em desvantagem pode haver uma miríade mais vasta de alternativas, em vantagem o treinador não tem um pingo de improviso. É guiado pelo medo, refém das consequências que uma perda de pontos poderá ter no seu futuro.

O problema? É um risco demasiado grande. Se correu bem com o Sp. Braga, o mesmo não aconteceu com o Rio Ave. A primeira substituição voltou a tardar muito e, mesmo antes de aparecer, não seria preciso muito para prever que só poderia acontecer uma de duas coisas: lançar Diaby no lugar de um dos alas (Vietto/Raphinha) numa alegada tentativa de refrescar energias e aproveitar a suposta inteligência tática que sempre lhe pareceu gabar, ou dar novo sangue à defesa (Borja), adiantando Acuña e sacrificando um de Vietto e Raphinha.

Keizer não estica a corda. Uma única vez. Se o adversário avança, ele recua. E parece continuar a recuar as vezes necessárias até garantir que tem sempre uma vantagem posicional no setor defensivo, ignorando que os momentos de jogo e a confiança oscilam negativamente com a mensagem que envia, sem precisar de dizer nada, para dentro das quatro linhas.

O holandês não era assim. E já não irá a tempo de mudar. Os adeptos exigem cada vez mais a sua demissão e o facto de a contestação se alargar à direção fará com que a vontade popular acabe por ser soberana… para desvantagem do treinador.

Algures durante o caminho, Keizer perdeu a sua personalidade. Ficou sem os seus princípios. Tornou-se vítima do meio e refém do próprio receio. Este duplo fenómeno tornou-o obsoleto. Um treinador tem de cair com as suas ideias intactas e não entrar numa espiral negativa de manobras de sobrevivência. Estará apenas a adiar o inevitável e será irreconhecível.