NFL: Os New England Patriots… e o resto do mundo

NFL: Os New England Patriots… e o resto do mundo

Por Rui Silva

AFC: Patriots com caminho aberto?

A nova temporada da NFL está a chegar e, uma vez mais, como tantas outras vezes no século XXI, os New England Patriots partem de uma posição privilegiada: a de campeão em título. Pouca importa que Tom Brady tenha 42 anos, que Rob Gronkowski tenha decidido terminar a carreira (definitivamente?) e que a equipa seja vista como alvo a abater pelo resto da liga. Bill Belichick continua a ser o timoneiro e o defeso acabou por ser mais animador do que chegou a parecer. 

O wide receiver N’Keal Harry, escolha da primeira ronda, está lesionado, mas houve três outros elementos a destacarem-se durante a pré-época: o quarterback Jarrett Stidham deu sinais suficientemente positivos para ganhar o estatuto de alternativa a Brady a Brian Hoyer, Jacoby Meyers mostrou muita qualidade como wide receiver e Chase Winovich fez recordar, e não apenas no nome, Rob Ninkovich. Além de tudo o resto, também Josh Gordon foi recuperado pela equipa após ter visto o seu castigo revogado pela NFL.

A dinastia dos New England Patriots afeta a NFL de forma inequívoca. Os domínios são chatos e as supremacias devem ser derrubadas, mas a era promete continuar. Para mal dos pecados dos adversários de divisão, condenados a fazer dois jogos por época com os Patriots. Buffalo Bills, New York Jets e Miami Dolphins sabem o que têm reservado e os últimos pareceram hastear a bandeira branca em vésperas de arranque.

Brian Flores chegou do papel de coordenador defensivo dos Patriots para comandar os Dolphins mas a troca desta semana retirou qualquer dúvida sobre qual será a inclinação para esta temporada. De nada vale andar a hesitar entre Ryan Fitzpatrick e Josh Rosen, quando Laremy Tunsil – importante left back – e Kenny Stills – wide receiver – seguiram caminho para Houston em troca de escolhas para utilizar no futuro.

Este tem sido a fatalidade de Dolphins, Jets e Bills nos últimos anos: pulular na sombra dos Patriots à espera que a armadura de Tom Brady enfraqueça. O cenário alastra-se ao resto da AFC mas com um impacto diferente. Os Texans, com Tunsil e Stills, deram um passo para trás e dois para a frente. Em poucas horas, enviaram Jadeveon Clowney para os Seattle Seahawks e viram a defesa ficar mais fraca. Mas, ao mesmo tempo, fortaleceram um ataque que tem dado poucas razões de festejo a Deshaun Watson. Se no ano passado o quarterback teve de viajar de autocarro entre Houston e Jacksonville, por culpa de uma lesão no peito contraída nas inúmeras vezes que os seus colegas permitiram que fosse atingido, agora, pelo menos com a presença de Tunsil, a segurança parece estar reforçada.

Os Texans aproveitaram a oportunidade gerada com o fim de carreira precipitado de Andrew Luck. O até este ano quarterback dos Indianapolis Colts foi a primeira escolha de 2012 mas decidiu que não aguentava mais. A sucessão de lesões e programas de reabilitação tornaram-se um fardo demasiado grande e a escolha foi dizer adeus, abrindo caminho para Jacoby Brissett, entretanto já com o contrato renovado, assumir a sua posição. Os Colts podiam lutar por algo mais mas sem Luck… é preciso que os principais rivais tenham muito azar.

Os Colts e os Texans podem tentar mas a maior ameaça da AFC continua a chamar-se Kansas City Chiefs. Depois de uma época que consagrou Pat Mahomes como um dos melhores quarterbacks da liga, espera-se mais do mesmo. No momento decisivo, a equipa pode ter vacilado em casa com os Patriots, mas a ideia é aprender com os erros e evitar que se repitam. A AFC West não será um passeio tão grande por causa dos LA Chargers e da nova cara dos Denver Broncos, com Joe Flacco como quarterback, mas os Oakland Raiders prometem continuar a ser alvo de chacota, com Antonio Brown a somar novelas sem pés nem cabeça (da queimadura provocada pela utilização de calçado desadequado numa sessão de crioterapia à polémica rocambolesca do capacete a utilizar) e Jon Gruden a indiciar que talvez tenha muito mais jeito para fazer anúncios (ao nível de Pedro Lamy na década de 90) do que para orientar uma equipa com sucesso.

A grande incógnita mora, ainda assim, na AFC North. Os Pittsburgh Steelers, já sem Le’Veon Bell e Antonio Brown mas com um Ben Roethlisberger motivadíssimo, partem na pole position mas os olhos estão todos focados em Cleveland. Depois de anos no inferno, a equipa está a gerar muita curiosidade, com um ataque de relevo com Baker Mayfield, Jarvis Landry, Odell Beckham Jr. e Nick Chubb, sabendo que Kareem Hunt estará disponível na segunda metade da fase regular após cumprir castigo. Em Baltimore também morará uma equipa excitante, embora Lamar Jackson ainda precise de provar que consegue liderar um grupo com qualidade… por terra (running game) e por ar (passing game). 


NFC: LA Rams na frente mas tabuleiro está aberto

A NFC promete manter um espírito muito mais aberto a novidades do que a AFC. Depois da Super Bowl perdida em Atlanta, os LA Rams sentem que poderão partir para uma nova oportunidade, mas a história demonstra que a) é difícil repetir presenças na final e b) a conferência é sempre muito mais incerta.

A sempre histórica e curiosa NFC East parte com os Philadelphia Eagles, campeões em 2018, em plano de destaque e com um enorme ponto de interrogação nas restantes equipas. Os Dallas Cowboys têm passado mais tempo a debater questões internas, com a rábula da renovação de contrato de Ezekiel Elliott, que o tem afastado da competição e vai, indubitavelmente, fazê-lo falhar, no mínimo, a primeira jornada. No nordeste, os New York Giants estão a passar por um processo de renovação. Despacharam Odell Beckham Jr. e o mesmo pode estar prestes a acontecer com Eli Manning, o quarterback que os conduziu a dois títulos frente aos Patriots. A escolha de Daniel Jones na sexta posição surpreendeu. O desempenho do quarterback na pré-temporada também… mas pela positiva. É certo que o irmão mais novo dos Manning vai ser titular na estreia… mas até quando durará? Os Redskins não vão contar para este totobola e prometem ser ainda piores que os Dolphins na AFC.

A NFC North tem o privilégio de assinalar o arranque da temporada oficial. Os bilhetes para o “dérbi” entre Chicago Bears e Green Bay Packers são os mais caros da primeira jornada – aproximam-se dos 300 dólares – e há uma dupla expetativa em perspetiva. De um lado, saber como reagirão os Bears à dramática eliminação de janeiro, com um field goal que foi desviado pela defesa e acabou a bater duas vezes nos postes. O trauma ainda não foi superado e a pré-temporada ficou marcada por uma pesquisa obsessiva de um substituto para Cody Parkey. Eddy Pineiro, sem experiência oficial na NFL, foi o escolhido e tem tudo menos o lugar garantido… depois da primeira jornada.

De Lambeau Field surgem também esperanças renovadas. Matt LaFleur é considerado uma mente brilhante no nível ofensivo mas a época de estreia vai trazer muitos obstáculos: a relação com Aaron Rodgers, um dos quarterbacks mais talentosos da NFL, mas *talvez* em fase decadente, será o mais difícil. Os Detroit Lions não devem entrar nas contas e os Minnesota Vikings conseguiram estragar a curiosidade mais interessante da pré-temporada: dispensar o kicker norueguês que tinham recrutado.

Se na NFC South o caminho parece estar aberto para os New Orleans Saints – o relógio está a dar os últimos tiques na janela de Drew Brees, apesar das referências crescentes de Alvin Kamara e Michael Thomas -, com Atlanta Falcons à espreita, a NFC West traz outra das grandes curiosidades da época: saber como será Kyler Murray, o quarterback (primeira escolha do draft) que foi disputado até à última com… a Major League Baseball. Os seus direitos também pertencem aos Oakland Athletics mas a vontade de começar já a jogar profissionalmente e de liderar uma equipa falou mais alto.

Josh Rosen foi “despachado” para Miami e Kyler Murray ficou com o caminho aberto para ser titular. Os Arizona Cardinals vão ser declaradamente maus e o tamanho, sobretudo a altura, de Murray é uma das debilidades mais vezes apontada ao jogador. A curiosidade é grande mas não o suficiente para que os bilhetes para a primeira jornada ultrapassem os 30 dólares.

Der por onde der, com surpresas, confirmações, previsões furadas ou não, a NFL começa na madrugada de quinta para sexta-feira. E nós só podemos estar colados ao ecrã. A espera foi interminável e está mais do que na hora de voltarmos aos domingos loucos.