mehr als fuβball: da Bundesliga política

mehr als fuβball: da Bundesliga política

Por Rafael Neves

A mistura da política com o futebol não é algo proeminente no nosso país, e muitos diriam que é melhor assim. Se, por um lado, a neutralidade política pode ser desejável para quem quer disfrutar do desporto e do jogo puramente pelo entretenimento que proporciona, por outro lado, a plataforma que o futebol representa pode ser importante.


A Alemanha é um país com um contexto político diferente do nosso, e um contexto futebolístico ainda mais díspar. Um dos grandes trunfos do futebol alemão é o facto de ainda ter um modelo direcionado para os fãs, e estes sempre fizeram uso da sua voz e visibilidade para fazer ouvir as suas opiniões.

Em Hamburgo, o St. Pauli é o exemplo mais famoso e provavelmente o clube mais politicamente ativo do mundo. O clube é marcadamente de esquerda e promove frequentemente ações de intervenção em temas importantes para a sociedade, com os jogadores a usarem as cores do arco-íris em apoio ao movimento LGBT, a organização de corridas contra o racismo, e a luta contra a publicidade sexista. Mas mais importante do que aceitar todas as iniciativas é ter o espírito crítico e a atenção para saber quais aquelas a que o clube quer de facto associar-se. Quando a revista Bild, uma das maiores da Alemanha, promoveu uma campanha de apoio aos refugiados através de mensagens nas camisolas dos clubes, o St. Pauli rejeitou. Se, à primeira vista, esta seria uma iniciativa perfeitamente de acordo com os princípios do clube, por outro lado, era questionável se a revista estaria a fazer aquilo pelos motivos certos ou apenas como uma ação de marketing. Não raramente, a Bild deu voz na sua revista a posições pouco favoráveis à integração dos refugiados, e o clube não esqueceu esse facto. Após a recusa, o editor da revista mostrou-se indignado e fez vários posts depreciativos ao St. Pauli no seu Twitter, o que só deu razão à desconfiança.


Quem não demorou muito tempo a juntar-se ao boicote da iniciativa foi outro clube politicamente ativo, o SC Freiburg. Um dos membros mais interventivos do clube é precisamente o seu treinador, Christian Streich, que, quando confrontado com esta questão, desenvolveu um monólogo de 8 minutos em que, com uma coerência fora do normal, explicou o porquê da sua posição de apoio aos refugiados. O clube da floresta negra tem ideais explicitamente ambientalistas, sendo que o facto de ser uma cidade universitária faz com que se trate de uma comunidade de inclinação à esquerda. O mesmo acontece com outros clubes em cidades universitárias, como é o caso do FC Koln.

Para além de instituições, também são visadas personalidades específicas. Um exemplo disto são as faixas que os adeptos do Bayern Munich expuseram contra o Ministro Federal da Bavaria, Hornst Seehofer, e o ministro do interior Joachim Herrmann, pelas suas declarações anti-imigração, onde se podia ler, entre outras coisas, “Quem precisa de partidos racistas quando estes dois levam a sua avante?” ou “Cobardes racistas – odiamos-vos”. Outro exemplo são os vários cartazes que os adeptos do SC Freiburg exibiram contra o político da AfD Dubravko Mandic, que comprou bilhete de época para os jogos do clube, apesar de admitir publicamente que não gostava de futebol mas que o desporto movia as massas, nas quais se podia ler “Friburgo é diversa” ou “Mandic Fora, AfD nojento”.

A consciência política dos adeptos leva também à consciencialização política das instituições. O Bayern Munich e o Leverkusen, entre outros, promoveram iniciativas em que crianças refugiadas acompanharam os seus jogadores na entrada em campo, e o Dortmund convidou refugiados a ir ao estádio assistir a um jogo.

A presença política nas bancadas serve também como fiscalização aos próprios clubes. Quando Dietrich Mateschitz, CEO da Red Bull, apareceu em público a criticar as políticas do governo alemão e austríaco durante a crise dos refugiados, bem como a dar voz a individualidades de extrema-direita num canal pertencente ao grupo Red Bull, os adeptos do RB Leipzig não ficaram indiferentes, e não demoraram a apresentar faixas com críticas à posição de Mateschitz. Entretanto, em véspera de eleições regionais que podem resultar na ascensão do partido de extrema-direita AfD (Alternative for Germany), o clube promoveu a iniciativa “Our ball is colorful”, distribuindo cartazes pela região, com as estrelas do clube a exibirem palavras como “respeito”, tolerância” ou “abertura ao mundo”.

O RB Leipzig não é, no entanto, caso único no que toca a clubes que tentam passar mensagens que contrariem uma certa posição por parte de pessoas ligadas à instituição. Clubes como o Hansa Rostock, Energie Cottbus ou Dynamo Dresden são conhecidos por terem grupos de adeptos apoiantes da extrema-direita. Isto não significa obviamente que o clube ou que a maioria dos adeptos partilhe desta posição e, como tal, muitos clubes tentam promover que a maioria silenciosa dos adeptos contrarie estes ideias e seja mais interventivo contra o racismo e xenofobia.

Não há muitas coisas na nossa sociedade que consigam mover massas e paixões como o futebol, o que faz com que, por muito que se queira olhar para o desporto como puro entretenimento, este assuma uma importância e influência que não podem, nem devem, ser menosprezadas,

A crise de refugiados e a ascensão da extrema-direita são temas fraturantes na sociedade alemã e os adeptos não deixam de aproveitar o espetáculo do futebol para demonstrar a sua paixão não só pelos respetivos clubes como também pelos princípios e valores que seguem. Para eles, o jogo é mehr als fuβball (“mais que futebol”).

Imagem de capa emprestada da These Football Times

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