Cantona, ou a higienização do futebol pós-moderno

Cantona, ou a higienização do futebol pós-moderno

Cantona foi um extraordinário jogador de futebol. Talentoso, entusiasmante, imprevisível, apaixonante. Como qualquer bom semi-deus a operar perto da área, equilibrava as bolas que perdia com aquelas que fazia entrar com estrondo. Foi uma personagem complexa, é certo – tanto alegrou milhares de fãs, como bateu em adversários e adeptos.

Se existe uma figura prototípica de jogador de futebol, não há qualquer traço dela em Eric Cantona. A recusa do francês em agir em conformidade com as convenções sociais coloca-o num plano distinto. Cita o Acto IV do Rei Lear de Shakespeare, num evento da UEFA, com a facilidade de um passe curto – “somos para os deuses o que as moscas são para os meninos”. Encoraja revoluções sociais contra o capitalismo global, num assomo marxista. Luta pela libertação de palestianianos presos sem condenação em Israel.

Cantona é política, literatura e filosofia. Numa era em que os jogadores de futebol não devem expressar visões políticas e não devem falar para além dos limites da sua assessoria, Cantona continua a ser uma pedrada no charco. Como o foram Boban, Maradona e Sócrates antes dele.

No futebol pós-moderno (pós-Taça das Taças, pós-Bosman e pós-SADs), figuras como as de Cantona assemelham-se cada vez mais a personagens mitológicas. As redes sociais, assessorias de imprensa ou empresários não são senão instrumentos de um Panóptico, como o viu Michel Foucault – são elementos de castração, de domínio. Num futebol onde o dinheiro é um fim, ao invés de um meio, é inevitável que assistamos à higienização da modalidade e dos principais intervenientes.

O futuro é dos jogadores que não abrem a boca senão para gritar golo. Dos que não se metem em política, ou não tentam citar Shakespeare com medo de serem ridicularizados. O futuro do futebol é realizado pela Leni Riefehnstal – é um filme técnicamente irrepreensível e inovador, mas desprovido de passagens incómodas aos queridos líderes.

Na verdade, os jogadores do futuro serão uma visão shakespeariana – estarão para os Senhores do futebol como as moscas estão para os meninos.

Por Pedro Barbosa.