A importância de reafirmar o individualismo

A importância de reafirmar o individualismo

Por Rui Silva

Falar de futebol de rua tornou-se moda. A mudança na sociedade portuguesa, por arrasto das alterações do estilo de vida ocidental, afetou a evolução da criança enquanto jogadora da bola e provocou diferenças inegáveis no estilo do jogador moderno.

«Os prodígios do futebol são todos miúdos africanos. É o futebol de rua que está a regressar.» A frase é de Aurélio Pereira, o pai do futebol de formação em Portugal, numa entrevista recente. O homem que está ligado ao aparecimento das principais estrelas da formação do Sporting nas últimas décadas antecipa um regresso do futebol de rua – prematuro na minha opinião -, associando-o claramente a uma clivagem social, onde só os mais desfavorecidos (o comentário de Aurélio Pereira foi nesse sentido) mantêm os princípios que alimentavam os jogadores mais criativos e fantasistas do passado.

O futebol de rua tem vindo a ser alvo de uma tentativa de imitação nas principais academias de formação europeias. A iniciativa é nobre e faz sentido: é urgente devolver a liberdade anárquica às crianças no momento em que se começam a relacionar com a bola. Durante muito tempo, no início do século XXI, houve um esforço de automação. O problema é que o ambiente nunca será o mesmo e teremos sempre uma qualquer forma de seitan a substituir carne.

O futebol de rua despertava sentidos sem aviso. E fá-lo da mesma forma que Daniel Larusso aprendeu técnicas de combate com o senhor Miyagi sem sequer se aperceber.

Ao fugir do portão do vizinho que ameaçava furar a bola com a espingarda, adquiria-se a noção de linha de passe perigosa ou zona de ação evitável.

Ao saber sempre quando havia um carro a aproximar-se, fosse pelo canto do olho ou pelo barulho, desenvolvia-se uma visão de jogo e capacidade de conhecer o tempo e o espaço envolvente.

Mas havia mais, muito mais. A ausência de guarda-redes, solucionada com balizas muito mais curtas, era apenas um dos elementos que potenciavam a técnica individual. Fosse passe ou remate, a precisão era crucial. Bem como a capacidade de receção e controlo num espaço que podia ter pedras, terreno inclinado e, muitas vezes, com formas que se afastavam, e muito, do tradicional retângulo de jogo.

A cereja deste bolo era o individualismo. Era a ideia de que para ser melhor era preciso bater o melhor, fintar o melhor, derrotar o melhor. O futebol de rua era a final e os jogos de preparação faziam-se sozinhos, experimentando e desenvolvendo expressões de individualismo que, acima de tudo, ajudassem a envergonhar o adversário.

Fintar não era apenas um recurso, era um bem necessário. Era o ponto alto da tarde de bola com amigos. O golo podia ser o orgasmo do futebol mas eram as fintas que alimentavam egos e sonhos de chegar mais alto. E mais longe.

O futebol de rua era uma pradaria de mustangs antes de chegarem a Bölöni. Rebeldes, anárquicos, imprevisíveis, a precisar apenas de uma linha condutora para conseguirem contribuir para o coletivo com a sua magia.

Hoje, a ordem é inversa. Os mustangs selvagens foram sendo substituídos por frangos de aviário sem espaço, sem liberdade de movimentos e obrigados a pensar da mesma forma. Não podem pintar fora das linhas porque não conhecem mais. E quando lhes é pedido para serem criativos, ficam presos na engrenagem.

Aurélio Pereira diz que os miúdos africanos estão a prolongar o impacto do futebol de rua. Mas existe uma data de validade. Não será assim para sempre. O futebol merece um esforço global para reafirmar o individualismo no processo de formação do futebolista. E fazê-lo de forma espontânea, sem cercas, sem barreiras. 

Fotografia de capa emprestada do site proformanceglobal.com.

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